terça-feira, 19 de agosto de 2008

cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferivel
do que homem que iniciei
na medida do impossivel

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

Torquato Neto

20.10.70

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.

domingo, 27 de julho de 2008

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Pablo Neruda

sábado, 26 de julho de 2008

Cara B (Lado B)

Letra e música: Jorge Drexler
Mal traduzido por: Nilo Neto

Si cuando vuelves a casa
me ves sombrío,
dándole vueltas al vals
del desconsuelo,
ten compasión de esta falta de luz,
hoy soy una moneda que tiene dos lados de cruz.

Se quando voltas pra casa,
me vês sombrio,
dando voltas na valsa
do desconsolo,
tem compaixão dessa falta de luz,
hoje eu sou uma moeda que só tem coroa.

Y si me notas lejos
estando a tu lado,
como una réplica mala
de lo que yo era,
tómate en broma mi salto mortal,
hoy soy sólo una copia y tu tienes el original.

E se me notas longe
estando ao teu lado,
como uma cópia ruim
do que eu era,
leva na brincadeira meu salto mortal,
hoje sou só uma cópia e tu tens o original.


No le hagas caso
a tanto misterio,
vos ya sabés la verdad ;
que no hay nada peor para esta seriedad
que tomársela en serio.

Não faças caso
de tanto mistério,
tu já sabes a verdade,
que não há nada pior que essa seriedade,
que levá-la a sério.

Deja que hable
tu cercanía,
vos conocés la razón,
y no hay nada peor para este corazón
que una casa vacía.

Deixa que fale
tua proximidade,
tu conheces a razão
e não há nada pior pra esse coração,
que uma casa vazia.

Deja pasar
esta falta de fé,
este disco rayado que hoy
tiene sólo
cara B.

Deixa passar
essa falta de fé,
esse disco riscado que hoje,
tem só lado b.

terça-feira, 1 de julho de 2008

ALE EDO

ETOLOGIA

cachorros se masturbam
em bostas e bocetas
cadelas se masturbam
em bancos e bestas

eles se esfregam
em beiços e bundas vagabundas
mas só assumem filhos
de bocetas comportadas

elas alisam bichos de rua
gargalham com bichas e poetas
mas só se enroscam em gravatas.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinícius de Moraes
cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferivel
do que homem que iniciei
na medida do impossivel

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

Torquato Neto
20.10.70

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A noite na Ilha

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos

sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.

Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.

Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.

Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

Pablo Neruda

quarta-feira, 18 de junho de 2008

longo o caminho até o céu.
essa minha alma vagabunda,
com gosto de quarto de hotel.

leminski

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
E mais nada.

CECÍLIA MEIRELES
    JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Todos os homens não são bastante filósofos para estimar uma mulher apenas por seu espírito e coração e os próprios filósofos não se aborreceriam por encontrar reunidas a beleza do corpo e as qualidades da alma.

Thomas Morus

Antes de tudo, tem as mulheres o atrativo da beleza, que com razão preferem a todas as outras, pois é graças a esta que exercem uma absoluta tirania sobre os mais bárbaros tiranos. Sabereis de que provém aquele aspecto feio, aquela pele híspida, aquela barba cerrada que fazem parecer velho um homem que ainda se acha na flor dos anos ? Eu vos direi, provém do maldito vício da prudência, do que são privadas as mulheres, que por isso sempre conservam a frescura da face, a sutileza da voz, a maciez da carne, parecendo não acabar nunca para elas, a flor da juventude. Além disso, que preocupação tem as mulheres, a não ser a de proporcionar aos homens o maior prazer possível ? Não será esta a única razão dos enfeites, do carmim, dos banhos, dos penteados, dos perfumes, das essências aromáticas e tantos outros artifícios e modas sempre diferentes de vestir-se e disfarçar os defeitos, realçando a graça do rosto, dos olhos, da cor ? Quereis prova mais evidente de que só a loucura constitui o ascendente das mulheres sobre os homens ? Os homens tudo concedem às mulheres por causa da volúpia e, por conseguinte, só com a loucura que as mulheres agradam aos homens. Para confirmar ainda mais esta conclusão, basta refletir nas tolices que se dizem, nas loucuras que se fazem com as mulheres, quando se anseia por extingüir o fogo do amor.

Erasmo de Roterdam

Senhor, disse-lhe eu, dá uma mulher ao homem, por que embora seja a mulher um animal inepto e estúpido, não deixa contudo de ser alegre e suave, e, vivendo familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste deste.

Erasmo de Roterdam

Toda a arte deve dar prazer - o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade por que liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta das imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida.

Fernando Pessoa

Agora entra aqui um homem por quem estou muito apaixonada. Ele aparece no quarto e vai dizendo: ‘ deixe-me despir você ‘. Este homem virá e me despirá lentamente . Isto me dará bastante tempo para senti-lo , para ter suas mãos sobre mm. Antes de tudo ele abrirá meu cinto , tocará minha cintura com as duas mãos e dirá : ‘que linda cintura você tem , como é estreita, que belas curvas!’ Aí então desabotoará minha blusa muito devagar e eu sentirei suas mãos em cada botão e depois tocando meus seios pouco a pouco, até que eles saiam da blusa. Aí ele os amará e sugará os bicos como se fosse uma criança, machucando-me um pouco com os dentes. E eu sentirei tudo isso se espalhando pelo meu corpo, liberando todo os meus nervos e me dissolvendo num mar de desejo. Ficará impaciente com a saia. Estará desesperado de paixão. Não apagará a luz. Ficará me olhando, me admirando, me adorando, aquecendo meu corpo com as mãos, esperando que eu esteja totalmente excitada, até que cada poro do meu corpo tenha despertado para o amor.

Anais Nïn

maiakowski

TU



Entraste.

A sério, olhaste

a estatura,

o bramido

e simplesmente adivinhaste:

uma criança.

Tomaste,

arrancaste-me o coração

e simplesmente foste com ele jogar

como uma menina com sua bola.

E todas,

como se vissem um milagre,

senhoras e senhorias exclamaram:

- A esse amá-lo?

Se se atira em cima,

derruba a gente!

Ela, com certeza, é domadora!

Por certo, saiu duma jaula!

E eu júbilo

esqueci o julgo.

Louco de alegria

saltava

como em casamento de índio,

tão leve, tão bem me sentia.





DEDUÇÃO



Não acabarão com o amor,

nem as rusgas,

nem a distância.

Está provado,

pensado,

verificado.

Aqui levanto solene

minha estrofe de mil dedos

e faço o juramento:

Amo

firme,

fiel

e verdadeiramente.




O Amor



Um dia, quem sabe,

ela, que também gostava de bichos,

apareça

numa alameda do zoo,

sorridente,

tal como agora está

no retrato sobre a mesa,.

Ela é tão bela,

que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século

ultrapassará o exame

de mil nadas,

que dilaceravam o coração.

Então,

de todo amor não terminado

seremos pagos

em enumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,

nem que seja só porque te esperava

como um poeta,

repelindo o absurdo quotidiano!

Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!

Ressuscita-me!

Quero viver até o fim o que me cabe!

Para que o amor não seja mais escravo

de casamentos,

concupiscência,

salários.

Para que, maldizendo os leitos,

saltando dos coxins,

o amor se vá pelo universo inteiro.

Para que o dia,

que o sofrimento degrada,

não vos seja chorado, mendigado.

E que, ao primeiro apelo:

- Camaradas!

Atenta se volte a terra inteira.

Para viver

livre dos nichos das casa.

Para que

doravante

a família

seja

o pai,

pelo menos o Universo;

a mãe,

pelo menos a Terra.
"O artista como artista sente menos do que os outros homens porque produz ao
mesmo tempo que sente, e nesse caso há uma dualidade de espírito incompatível
com o estar entregue a um sentimento."

EMOÇÃO E POESIA

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem quão mais fácil é
escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito
de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual está
profundamente apaixonado. A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrita a
respeito de uma mulher abstrata.

Uma grande emoção é por demais egoísta; absorve em si própria todo o sangue do
espírito, e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever. Três espécies de
emoções produzem grande poesia - emoções fortes e profundas ao serem lembradas
muito tempo depois; e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto. Não a
insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte.

O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império de seu país e
para a história de seu povo não deseja - não pode desejar ter muitos de seus soldados
assassinados (mortos). Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação de sua
estratégia, escolherá (sem um pensamento para seus homens) o golpe melhor, embora o
faça perder cem mil homens, em vez da estratégia pior, ou mesmo a mais lenta, que lhe
pode deixar nove décimos daqueles homens com quem e por quem luta, e a quem, em
geral, ama. Torna-se um artista por amor a seus compatriotas, e expõe-nos à carnificina
por causa de sua estratégia.

Fernando Pessoa.

Nas noites do tempo,

Moldei em mim o teu semblante.

E nos invernos da vida,

Troquei de roupagem a espera de ti.

Tal qual viajor errante,

Busquei nos céus e na terra,

Mal sabendo que a eternidade

Um dia me reservara a ti.

R. H. Portanianos

Drumoniaca

Ela quis dormir comigo,

percebi num relampago,

na faisca saltada

no meio da conversa,

perto da pista de dancas

naquele bar tipo antigo.

Ela quis mexer comigo,

como quem mexe gim

com agua tonica de quinino

mostrando a marca do pinguim

numa porra de domingo.

Ela quis beber comigo,

quando viu naquele pingo

o que haveria de intimo

entre dois estranhos perdidos

nos bares daquela avenida,

descartados quem pede pinico

ou quem se afoga em vinho tinto

trazido de contrabando

por um palhaco de circo.

Ela quis amar comigo;

nao me importa que va para casa,

e fique com o marido

todo santo dia,

e que saia com o amante

uma vez por mes, so de folia,

ou que nunca tenha feito isso.

Ela quis meter comigo,

nao por ser virgem,

ou apenas mal comida,

nem por puro furor uterino;

nada disso. Nao usou lado felino

que a empurrasse,

nem suposto feminino.

Ela quis gozar comigo

nao por castigo,

vinganca de mulher traida

contra o amante perdido

ou outro tipo de equivoco,

nem por falta de abrigo

numa noite de muito pisco.

Ela quis trepar comigo,

ainda que seja fria,

faca esporte ou pratique terapia;

que banque a suicida, a conformada,

ou que so durma de noite

a custa de bolinha.

Ela quis foder comigo;

vou te contar,

foi um perigo sentir na carne

seus olhos fixos enormes;

me deu um puta arrepio;

so de pensar nisso me incho

e sinto la dentro um vazio.

Ela quis dancar comigo,

e nem sequer foi permitido.

Pouco importam

nossos caminhos distintos.

Pouco importam, a mim,

os terrenos baldios,

os amores tardios

e a vida por um fio.

Ela quis sorrir comigo,

e esta parte ninguem tasca,

ninguem toca, esta garra

nem Deus da ou tira;

esta faca, minha amiga, inda corta,

e num dia qualquer

seu olhar ainda respinga,

como umida vagina;

seu farto peito arfa,

a venta mais se alarga,

e apesar da outra sina,

no fim da tarde, em outra casa,

em outra esquina,

ainda me da um arrepio:

Ela quis dormir comigo!