segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Frase da semana, presente do Carlos Kiplin: meu exagero no desapego, me compromete.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

buk erótico

Então lá estava eu, aos cinquenta e seis anos, na Zona Oeste de Los Angeles, às 3:45 da tarde, com duas das mais lindas mulheres da América - ou de qualquer outro lugar, diga-se de passagem. E com duas mulheres mais absurdamente difíceis do mundo - elas eram conscientes dos próprios corpos e de como os outros reagiam a esses corpos, e era muito difícil para elas seguirem sendo humanas com tudo acontecendo dessa maneira. No entanto ambas tinham brilho interior e jogo de cintura; não haviam sucumbido totalmente à aparência. Isso era desconcertante e mortal e maravilhoso.

C. Bukowski - Pedaços de um caderno manchado de vinho

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Efraim Medina Reyes:
Sensibilidad es alcanzar la velocidad justa y la caricia exacta.

sábado, 3 de dezembro de 2011

"As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física".

Friedrich Nietzsche

terça-feira, 6 de setembro de 2011


SIMULTANEIDADE
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo (Poesia Completa, p. 535)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

biografia de Buñuel

Sobre as filmagens do filme Viridiana:

Conservo uma lembrança especial  do extravagante personagem que interpretava o leproso, uma mistura de vagabundo e louco. Permitia-se que morasse no pátio do estúdio. Ele escapava a toda direção de ator e, no entanto, acho-o maravilhoso no filme. Algum tempo depois encontrava-se em Burgos, num banco. Passam dois turistas franceses que viram o filme. Reconhecem-no e cumprimentam-no. Ele recolhe imediatamente seus magros pertences, joga sua trouxa nos ombros e sai andando e dizendo: "Vou para Paris! Lá sou conhecido!"

Morreu no caminho.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

         O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
         Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
         O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da acção com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações? Que seria do mundo se fôssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, não haveria civilização. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a acção teve que esquecer. A arte é a Gata Borralheira, que ficou em casa porque teve que ser.
         Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz. Conhece-se um homem de acção por nunca estar mal disposto. Quem trabalha embora esteja mal disposto é um subsidiário da acção; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens. À regência pertence a insensibilidade. Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.
         O patrão Vasques fez hoje um negócio em que arruinou um indivíduo doente e a família. Enquanto fez o negócio esqueceu por completo que esse indivíduo existia, excepto como parte contrária comercial. Feito o negócio, veio-lhe a sensibilidade. Só depois, é claro, pois, se viesse antes, o negócio nunca se faria. “Tenho pena do tipo”, disse-me ele. “Vai ficar na miséria.” Depois, acendendo o charuto, acrescentou: “Em todo o caso, se ele precisar qualquer coisa de mim” - entendendo-se qualquer esmola - “eu não esqueço que lhe devo um bom negócio e umas dezenas de contos.”
         O patrão Vasques não é um bandido: é um homem de acção. O que perdeu o lance neste jogo pode, de facto, pois o patrão Vasques é um homem generoso, contar com a esmola dele no futuro.
         Como o patrão Vasques são todos os homens de acção - chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer. O resto, que é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível, imaginativa e frágil, e nao mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras da cena até que a peça de fantoches acabe, o fundo-chato de quadrados sobre o qual se erguem as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que, iludindo a reportagem com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se sempre contra si mesmo.
Bernardo Soares - Livro do Desassossego
fernando pessoa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

"Essas palavras, que provavelmente, tal como se apresentam, ninguém as teria dito antes, essas palavras tiveram a sorte de não se perderem umas das outras, tiveram quem as juntasse, quem sabe se o mundo não seria um pouco mais decente se soubéssemos reunir uma quantas palavras andam por aí soltas"

Saramago

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Provérbios do inferno



No tempo de semear, aprende; no da colheita, ensina; deleita-te no inverno.
O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria.
A prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela incapacidade.
Quem deseja e não age, gera pestilência.
Atira dentro do rio quem gostar de água.
Jamais se torna estrela aquele cujo rosto não irradia luz.
Conta, peso e medida são para o ano da escassez.
Persistisse o louco na loucura, ele encontraria a sabedoria.
Loucura, máscara da patifaria.
Pudor, máscara do orgulho.
Orgulho do pavão, glória de Deus; lascívia do bode, munificência de Deus; ira do leão, sabedoria de deus; nudez da mulher, trabalho de Deus.
Os rugidos do leão, os uivos do lobo, o furor do mar tempestuoso e a espada aniquiladora são parcelas da eternidade, demasiadamente grandes para o olho do homem.
As alegrias fecundam; as dores dão à luz.
Ave: ninho; aranha: teia; homem: amizade.
Se estiveres sempre decidido a revelar a tua opinião, o torpe te evitará.
Tudo o que for possível de ser acreditado é um reflexo da verdade.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; à tarde, come; à noite, dorme.
São mais sábios os tigres da ira, do que os cavalos da educação.
Conta como certo o veneno da água parada.
Só podes conhecer o que é suficiente se conheceres o que é mais do que suficiente.
Fraco de coragem, forte de astúcia.
Se os outros não fossem néscios, nós o seríamos.
Alma de prazer delicado não pode se conspurcada.
Maldição ata; bênção desata.
Cabeça: o Sublime; coração: o Patos; genital; Beleza; pés e mãos: a proporção.
Ar para o pássaro. Mar para o peixe; desprezo para o desprezível.
O corvo quer tudo preto; a coruja tudo branco.
Exuberância e beleza
Melhor matar uma criança no berço que acalentar desejos inativos.
O bastante; ou o Demasiado.
                                                                 William Blake

quinta-feira, 18 de março de 2010


Testamento
Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!
(29 de janeiro de 1943)

sábado, 13 de março de 2010

Eu devia estar louco.  Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu único desejo era ter mais uma garrafa na cômoda. Não era feito para o mundo nem o mundo para mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca  dizendo-lhes que era grande, mas só eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: " Foda-se! Sirva mais um pouco de álcool!" Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.

Bukowski - Textos autobiográficos - L&PM

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


I
Confira
tudo que
respira
conspira

II

Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

III
Cinco bares,
dez conhaques
atravesso são paulo
dormindo dentro de um táxi

IV
isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

V

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

Paulo Leminski 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Eu conhecia um grande número de mulheres. Porque esse negócio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos são excitante, mas também dão um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre são um pouco dramáticos. As pessoas eram interessantes no início. Então, mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeições e as demências começariam a se manifestar. Eu seria então cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes pra mim.

Charles B.

abrace a escuridão

o verdadeiro deus é a desordem

o verdadeiro deus é a loucura


viver em paz permanente é viver permanentemente morto

a agonia pode matar

ou

a agonia pode dar sustentação a vida

mas a paz é sempre horripilante

a paz é o que há de pior

caminhadas

conversas

sorrisos

a aparência das coisas


não se esqueça das calçadas

das putas

da traição

do verme na maçã

dos bares, das cadeias,

do suicídio dos amantes.


aqui na América

assassinamos um presidente e seu irmão

outro presidente desistiu do cargo

pessoas que acreditam em política

são como pessoas que acreditam em deus

estão chupando vento através de canudos

curvos.


não há deus

não há polítiica

não há paz

não há amor

não há controle

não há plano


fique longe de deus

siga perturbado


deslize


Charles Bukowski

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

conselho amigável para muitos jovens

vá para o tibet
monte em um camelo
leia a bíblia
pinte seus sapatos de azul
deixe a barba crescer
dê a volta ao mundo numa canoa de papel
assine the saturday evening post
mastigue apenas com o lado esquerdo da boca
case-se com um perneta e se barbeie com uma navalha
e entalhe seu nome no braço dela
escove os dentes com gasolina
durma o dia inteiro e suba em árvores a noite
seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja
mantenha sua cabeça dentro d'água e toque violino
faça uma dança do ventre diante de velas cor de rosa
mate seu cachorro
concorra à prefeitura
viva num barril
rompa sua cabeça com uma machadinha
plante tulipas sob a chuva

mas não escreva poesia

charles bukowski

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O DONJUANISMO

Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo. Don Juan não vai de mulher em mulher por falta de amor. É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é justamente porque as ama com idêntico arroubo, e sempre com todo o seu ser, que precisa repetir essa doação e esse aprofundamento. Por isso, cada uma delas espera lhe oferecer o que ninguém nunca lhe deu. Em todas as vezes elas se enganam profundamente e só conseguem fazê-lo sentir necessidade dessa repetição. "Por fim", exclama uma delas, "te dei o amor." Não surpreende que Don Juan ria dela: "Por fim? Não" - diz ele -, "outra vez." Por que seria preciso amar raramente para amar muito?

Don Juan está triste? Não é verossímil. Quase não vou apelar para a crônica. Esse riso, a insolência vitoriosa, os pulos e o gosto pelo teatro são coisas claras e alegres. Todo ser saudável tende a se multiplicar. Don Juan também. Mas, além do mais, os tristes têm duas razões para estar tristes, eles ignoram ou eles têm esperança.

Don Juan sabe e não tem esperança. Faz lembrar esses artistas que conhecem seus limites, nunca os ultrapassam e, no intervalo precário onde seu espírito se instala, possuem a maravilhosa facilidade dos mestres. E está justamente aí o gênio: a inteligência que conhece suas fronteiras. Até a fronteira da morte física, Don Juan ignora a tristeza. A partir do momento em que sabe, seu riso explode e consegue que tudo lhe seja perdoado. Foi triste no tempo em que esperou. Hoje, na boca dessa mulher, torna a encontrar o sabor amargo e reconfortante da ciência única. Amargo? Quase: essa necessária imperfeição que torna perceptível a felicidade!

É um grande engano que perdê-la. Esse louco

'"o pretender ver em Don Juan um homem que se nutre do Eclesiastes. Porque, para ele, a única vaidade é a esperança de outra vida. Ele o prova, porque aposta contra o próprio céu. O lamento do desejo perdido no deleite, esse lugar comum da impotência, não lhe pertence. Isto funciona para Fausto, que acreditou suficientemente em Deus para se vender ao diabo. O "Trapaceiro" de Tirso de Molina responde sempre às ameaças do inferno: "Que prazo grande você me dá!" O que vem depois da morte é fútil, e que longa série de dias para quem sabe que está vivo! Fausto exigia os bens deste mundo: o infeliz só precisava estender a mão. Já era vender sua alma o fato de não saber desfrutar dela. Don Juan, pelo contrário, busca a saciedade. Se abandoa uma bela mulher não é de maneira alguma porque não a deseje mais. Uma bela mulher sempre é desejável. Mas acontece que, nela, deseja outra coisa, o que não é a mesma coisa.

Esta vida o completa, não há nada pior que perdê-la

esse louco é um grande sábio. Mas os homens que vivem de esperança se sentem pouco à vontade nesse universo onde a bondade cede seu lugar à generosidade, a ternura ao silêncio viril, a comunhão à coragem solitária. E todos dizem: "Era um fraco, um idealista ou um santo." É preciso rebaixar a grandeza que insulta.

O discurso de Don Juan provoca bastante indignação (ou a risada cúmplice que degrada aquilo que admira), assim como aquela frase que serve para todas as mulheres. Mas, para quem busca a quantidade de prazeres, só interessa a eficácia. Para que complicar as formulas que funcionaram bem? Ninguém, a mulher ou homem, as ouve, só ouvem a voz que as pronuncia. São a regra, a convenção e a cortesia. Elas são ditas, e depois o mais importante ainda falta fazer. Don Juan já se prepara para isso. Por que teria um problema moral? Não é condenado por desejo de ser santo, como o Mafíara de Milosz, O inferno para ele é coisa provocada. Só há uma resposta para a cólera divina: a honra humana: "Sou um homem honrado", diz ele para o Comendador, "e cumpro minha promessa porque sou um cavalheiro." Mas seria um erro igualmente grande considerá-lo um imoralista. Neste sentido, ele é "como todo mundo": tem a moral de sua simpatia ou sua antipatia. Para entender bem Don Juan, é preciso referir-nos sempre ao que ele simboliza vulgarmente: o sedutor comum e o mulherengo. Ele é um sedutor comum[1]. I Com uma diferença: é consciente, e portanto é absurdo.

Um sedutor que adquiriu lucidez não mudará por isso. Seduzir é sua condição. Somente nos romances as pessoas mudam de condição ou se tornam melhores. Mas pode-se dizer que ao mesmo tempo nada mudou e tudo se transformou. O que Don Juan põe em prática é uma ética da quantidade, ao contrário do santo) que tende à qualidade. A característica do homem absurdo é não acreditar no sentido profundo das coisas. Ele percorre, armazena e queima os rostos calorosos ou maravilhados. O tempo caminha com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em "colecionar" mulheres. Esgota seu número e, com elas, suas possibilidades de vida. Colecionar é ser capaz de viver do passado. Mas ele rejeita a nostalgia, essa outra maneira da esperança. Não sabe contemplar os retratos.

Será por isso egoísta? À sua maneira, sem dúvida. Mas, também aqui, precisamos nos entender bem. Há gente que é feita para viver e gente que é feita para amar. Don Juan, ao menos, diria isto de bom grado. Mas para escolher precisaria de um atalho. Parque o amor de que ele fala é aqui adornado com as ilusões do eterno. Todos os especialistas em paixão nos ensinam isso, não há amor eterno a não ser o contrariado. Não existe paixão sem luta. Um amor assim se termina com a última contradição, que é a morte. Você tem que ser Werther, ou nada. Aí também há várias maneiras de suicidar

se, uma das quais é a doação total e o esquecimento da própria pessoa. Don Juan, como qualquer um, sabe que isso pode ser emocionante. Mas ele é dos poucos a saber que não é o mais importante. Sabe muito bem: aqueles que são afastados de toda a vida pessoal por um grande amor talvez se enriqueçam, mas certamente empobrecem os escolhidos pelo seu amor. Uma mãe, uma mulher apaixonada têm necessariamente o coração seco, porque afastado do mundo. Um único sentimento, um único ser, um único rosto, mas tudo acaba devorado. É outro amor o que faz Don Juan estremecer, e este é libertador. Traz consigo todos os rostos do mundo e seu tremor provém de saber se perecível. Don Juan escolheu não ser nada.

Para ele, a questão é ver claro. Só chamamos de amor o que nos une a certos seres por influência de um ponto de vista coletivo gerado nos livros e nas lendas. Mas do amor só conheço a mistura de desejo, ternura e entendimento que me liga a determinado ser. Tal composto não é o mesmo em relação a outro. Não tenho o direito de revestir todas essas experiências com o mesmo nome. Isto dispensa de realizá-las com os mesmos gestos. Também aqui o homem absurdo multiplica o que não pode unificar. Assim, descobre uma nova maneira de ser que o libera tanto quanto libera o próximo. Não há amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular. São todas essas mortes e esses renascimentos que constituem para Don Juan o eixo de sua vida. É a maneIra que ele tem de dar e de fazer viver. Será que se pode falar de egoísmo?

Penso agora em todos os que desejam um castigo para Don Juan seja como for. Não apenas na outra vida, mas também nesta. Penso em todas as histórias, lendas e brincadeiras sobre Don Juan envelhecido. Mas Don Juan está preparado para isso. Para um homem consciente, a velhice e o que esta pressagia não é nenhuma surpresa. Ele é consciente dela na medida em que não oculta de si mesmo o seu horror. Em Atenas havia um templo consagrado à velhice, aonde levavam as crianças. No caso de Don Juan, quanto mais se ri dele, mais se destaca sua figura. Ele recusa, assim, a imagem que os românticos lhe atribuíram. Ninguém quer rir desse Don Juan atormentado e lastimável. Têm compaixão dele, será que o próprio céu o redimirá? Mas não se trata disso. No universo que Don Juan vislumbra, o ridículo também está incluído. Ser punido lhe parece normal. É a regra do jogo. E sua generosidade consiste, justamente, em ter aceito inteiramente a regra do jogo. Mas ele sabe que tem razão e que não pode tratar-se de castigo. Um destino não é uma punição.

Este é o seu crime, e se entende que os homens do eterno exijam um castigo. Don Juan chegou a uma ciência sem ilusões que nega tudo o que eles professam. Amar e possuir, conquistar e esgotar, eis sua maneira de conhecer. (Tem sentido esta escolha das Escrituras, que chamam de "conhecer" o ato do amor.) Na medida em que ignora, é pior inimigo deles. Um cronista informa que o verdadeiro "Trapaceiro" morreu assassinado por franciscanos que quiseram "dar fim aos excessos e impiedades de Don Juan, cujo nascimento garantia a sua impunidade". E depois proclamaram que o céu o tinha fulminado. Ninguém provou esse estranho fim. Ninguém tampouco demonstrou o contrário. Mas mesmo sem questionar se isso é verossímil, posso dizer que é lógico. Quero grifar aqui o termo "nascimento" e jogar com as palavras: o que garantia a sua inocência era viver. Só na morte ele adquiriu uma culpa, agora lendária.

Que outra coisa significa o Comendador de pedra, essa fria estátua animada para castigar o sangue e a coragem que ousaram pensar? Nele se resumem todos os poderes da Razão eterna, da ordem, da moral universal, toda a grandeza externa de um Deus acessível à cólera. Essa pedra gigantesca e sem alma simboliza apenas os poderes que Don Juan sempre negou. Mas a missão do Comendador pára aí. O raio e o trovão podem voltar ao céu fictício de onde foram chamados. A verdadeira tragédia se desenrola à margem deles. Não, Don Juan não morreu sob uma mão de pedra. Prefiro acreditar na bravata lendária, na risada insensata do homem sadio provocando um deus que não existe. Mas acredito"principalmente, que na noite em que Don Juan estava esperando na casa de Ana, o Comendador não apareceu e o ímpio deve ter sentido, depois de meia-noite, a terrível amargura daqueles que tiveram razão. Aceito ainda melhor o relato de sua vida que o mostra, ao final, encerrado num convento. Não é que se possa considerar verossímil o lado edificante da história. Que refúgio pedir a Deus? Mas isto representa antes a culminação lógica de uma vida totalmente impregnada de absurdo, o desenlace feroz de uma existência dedicada a alegrias sem futuro. O gozo termina aqui em ascese. É preciso entender que ambos podem ser as duas faces do mesmo desenlace. Que imagem mais assustadora desejar: a de um homem a quem seu corpo trai e que, por não ter morrido a tempo, consuma a comédia esperando o fim, cara a cara com o deus que não adora, servindo-o como serviu a vida, ajoelhado diante do vazio com os braços estendidos para um céu sem eloqüência e, como ele sabe, também sem profundidade.

Vejo Don Juan numa cela daqueles monastérios espanhóis perdidos numa colina. Se ele olha para alguma coisa, não é para os fantasmas dos amores passados, mas, talvez por uma seteira ardente, para alguma planície silenciosa da Espanha, terra magnífica e sem alma onde se reconhece. Sim, é preciso fazer um alto diante dessa imagem melancólica e radiante. O fim último, esperado mas nunca desejado, o fim último é desprezível.




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segunda-feira, 25 de maio de 2009

"A arte e nada mais que a arte!
Ela é a grande possibilitadora da vida,
a grande aliciadora da vida,
o grande estimulante da vida.

A arte como única força superior
contraposta a toda vontade de negação da vida,
como o anticristão, antibudista,
antiniilista 'par excellence'.

A arte como a redenção do que conhece
- daquele que vê o caráter terrível
e problemático da existência,
que quer vê-lo, do conhecedor trágico.

A arte como a redenção do que age
- daquele que não somente vê o caráter terrível
e problemático da existência, mas o vive,
quer vivê-lo, do guerreiro trágico, do herói.

A arte como a redenção do que sofre
- como via de acesso a estados onde o sofrimento
é querido, transfigurado, divinizado,
onde o sofrimento é uma forma de grande delícia"
[Nietzsche]

sábado, 3 de janeiro de 2009

“Quando recusei o seio ao toque
pro primeiro homem que amei
ele perguntou se dava choque
e eu deixei...”

Martha Medeiros

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O poeta propõe seu epitáfio
(Julio Cortázar)

Por haver mentido muito ganhou um céu
mesquinho, a ser refeito todos os dias.
Por ser traidor até à traição, o amavam
as pessoas honradas.
Exigia virtudes que não dava
e sorria para que esquecessem.
Não viveu. Viviam-no um corpo desapiedado
e uma cadela sedenta, Inteligência.
Por não acreditar senão no belo, foi
um lixo na lixeira,
mas ainda assim fitava o céu.
Está morto, por sorte. Logo surgirá
algum outro como ele.

Tradução de Tonico Mercador.
desastre de uma idéia

só o durante dura

aquilo que o dia adianta adia



estranhas formas assume a vida

quando eu como tudo que me convida

e coisas alguma me sacia



formas estranhas assume a fome

quando o dia é desordem,

e meu sonho dorme



fome da china fome da índia

fome que ainda não tomou cor

essa fúria que quer

seja lá o que flor

leminski